Pedro Rodrigues, fale com minha pata!

14 de abril de 2010

Lucélia Santos não resistiu e pediu pra fotografar com Pedro!

Se você frequenta a cena cultural recifense, com certeza já esbarrou com Pedro Rodrigues. Há quem desconfie que ele tenha parentesco com o famoso Multi-Homem, do célebre documento-verdade da década de sessenta “Os impossíveis”, porque ele está em tudo. E quando digo tudo, eu digo TUDO (em bom português, “évrissin”, “évriuér”). Pedro sempre está por aí, câmera fotográfica e filmadora, atento a todos os sinais de vida inteligente (e até semi-inteligente) da movimentação cultural e artística de Pernambuco. É batata. Ele é o homem certo, na hora certa.

Mas quem afinal é ele? O famoso “Pedro do Vetor Cultural”? O Vetor Cultural é uma das mais ousadas iniciativas que temos aqui. Não apenas uma enorme agenda cultural, o Vetor é um gigantesco acervo contendo tudo o que se faz e se fez na cidade. Acho que, se bobear, além da cidade. Pedro Rodrigues nos proporciona, nada mais, nada menos, que uma memória viva de nossa história.

Mas engana-se quem pensa que Pedro é só Vetor. Poeta e artista plástico, e dos bons. Quer conhecer mais dele? Visite o Letra Felina. O caminho pro Vetor e pro Letra você também encontra nos nossos sesquipedais links aí a lado! E se quer conehcer direto da fonte, vá ao Nós Pós dessa quarta-feira, dia 14 – as coordenadas nosso colaborador Leslie Nielsen dá pessoalmente aqui.  Bom, sem mais delongas… sabe tudo aquilo que você sempre quis saber sobre Pedro Rodrigues, mas tinha medo de perguntar? Aaah, rapaz, a Pata não teve medo. E perguntou! Sem mais patati, mas com patatá, Pedro Rodrigues… fale com minha pata!!!

Pata: Quaquác quid “Pedro von Kulturvektor”, but qüemqüem quaquaquá quisquis, oder qüem oder qüá. Quaraquá quack ?

Pedro: É mesmo, 37 anos de Artes Plásticas e 29 de Literatura. Mas muito mesmo eu tenho de invisibilidade. A maioria de meu trabalho está entocado. Engavetado. Uma palhinha apenas: 18 livros escritos, mas nenhum publicado. Agora, os quadros, a parte de Artes Plásticas é mais complicada. Consegui reunir mais de 12 mil desenhos meus. Criação própria. Desenhos de todos os tipos, em papel de pão, papel de embrulho, entre outros. A coleção de desenhos em guardanapos é imensa, assim como os poemas. Tenho muita coisa escrita em guardanapo, memórias da época em que tomava uns mé. Agora me ligo muito em Capuccino e Cafés. E continuo a ir nestes lugares para desenhar. E continuo desenhando nos guardanapos.
Tenho também mais de 20 anos de Fotografia. Estudei com Firmo Neto, que, na minha opinião foi o maior fotógrafo de Pernambuco. Talvez do Nordeste.
Viajei um pouco na área de escultura, gravura, colagens. Fiz uma série muito interessante de esculturas dentro de aquários no início da década de 80. Estudei com Cavani Rosas no atelier Aurora.

Pata: Quicquid enim florui “Surrealismus” quack? Qüaráquáquá quéck? Qüararaquá squeak quequéc qüic quá?

Pedro: O Surrealismo como movimento, realmente já acabou, mas a idéia em si, de entrar no mundo além do real, no mundo onírico, ainda existe em muitos artistas. A idéia, para mim, de retratar o real como se conhece, é maçante. Gosto da maneira como retrato as coisas que pinto. É uma aventura.
O surrealismo hoje tem muitos representantes, mas muitos trabalhos se confundem com o Futurismo e outros estilos.

Pata: Quaráqüá quack quack qüem “Poetas Humanos”. Quaquá araraquara quoc, quiquiqui, quaquaquá, quarack quack squonc…!

Pedro: Não havia Cultura Recifense na época, como se faz hoje… Não havia Divulgação Cultural como se faz hoje. Não havia projetos, pelo menos, da forma que vemos hoje; nós não tínhamos conhecimento disso, justamente por não haver um movimento Cultural legítimo. Se falava muito em panelinhas, em preferidos das galerias e marchands. Os nomes estão ai para muita gente ver e todos sabem, mas ninguém fala.
De certa vez, levei umas fotos de quadros meus para uma pessoa envolvida com Arte, para que visse o que eu fazia e ele pediu que eu guardasse. Me tirou um livro de dentro da gaveta, disse que minha técnica era muito boa, mas pintando o que eu pintava ele não poderia fazer nada, mas se eu pintasse quadros parecidos com aqueles do livro ele compraria todos. Um outro caso, no Rio, um Galerista me pediu para pintar quadros parecidos com umas fotos que ele me mostrou que compraria todos. Mas que eu pintasse sem assinar. Eu me desencantei e quase parei de pintar.
Os Poetas Humanos. Cara, por favor. Isso me emociona muito… Muito. O que nós fizemos como Poetas Humanos, é realmente o que o Urros faz hoje, o que a Freeporto faz hoje. Sem querer de jeito nenhum diminuir o trabalho de vocês, que é grandioso. Nós tínhamos uma liberdade, imensa, imensa. Nós produzíamos muito. Nos reuníamos, fazíamos recitais, muitos na minha casa, publicávamos pequenos jornais de poesia, como o Coelho Paranóico, Felino pela Arte, entre outros. Mas cometemos a irresponsabilidade de fazer aquilo de maneira muito fechada. Não procuramos nos expandir e não tínhamos, por exemplo, pessoas como vocês, do Urros, da Freeporto, e outros, que conseguem visualizar e ir atrás de quem realmente produz Arte, produz Cultura. Éramos eu, o Denis Maerlant, o Marcelino Freire, Renato Siqueira, Regis Soares,  Adrienne Myrtes, Marcos Pinheiro de Melo, Jefferson Peixoto, e de vez em quando entrava um ou outro que fazia parte das leituras.
Cara, certa época,  vendíamos cartões poemas, nos bares. Mustang, Tio Patinhas. Fazíamos cartões tamanho postais e ilustrávamos a frente com nossos desenhos e nas costas colocávamos um poema. Tudo em serigrafia. Era demais.

Pata: Quisquis “Vetor Cultural”? Quaqueck quaquá, quid “Vetor” qüer?

Pedro: Mana, você sabia que eu já fazia o VETORCULTURAL.COM com 11 anos, quando nem existia internet ainda? Eu sempre viajava com a família, para as praias. Época das vacas gordas…Quando chegava nestas praias, o que mais me chamava atenção era a vida nas colônias de pescadores. Me lembro que tinha um mini-gravador e andava pelas colônias de pescadores gravando as músicas e conversas das comunidades. E fotografando. Este trabalho todo se perdeu. Coisas de desorganização mesmo. A gente não imagina como será no futuro. Tive uma adolescência muito tímida e para mim tudo parecia impossível, menos sonhar…
O vetorcultural.com dos dias de hoje, nasceu de um papo com um amigo, pois não tinha como divulgar meus quadros. Ele disse: coloca na internet. Eu aos poucos fui me informando sobre “isso”. Consegui colocar alguns quadros na internet. Página, que não era página, mal feita. Depois, uma amiga me pediu para colocar um panfleto de uma peça que ela estava trabalhando. Eu coloquei e ficou legal. Ela falou que o pessoal recebeu uns e-mails com o panfleto da peça. Eu tinha enviado. Daí me veio o pensamento: “por que não colocar outras coisas na internet, na minha página. Conheci um cara na estrada de Ipojuca, chamado Nelson Nay, que faz máscaras de cerâmica. Coloquei as máscaras dele no site. Acabei comprando algumas com o passar do tempo. Hoje tenho cerca de 30 máscaras feitas por ele, acabei aprendendo a fazer também e me tornei padrinho de filho dele, o Gabriel. Somos grandes amigos, hoje.
E o vetorcultural.com hoje conta com mais de 1500 páginas online, mais de 100mil fotos e mais de 350 horas de vídeo como acervo. Não sei contabilizar o que tenho mesmo. Além dos livros que sempre compro. Pretendo abrir para breve a Sala de Leitura do Vetorcultural.com.
O vetorcultural.com hoje publica gratuitamente a agenda Cultural dos principais órgãos de Cultura, Estaduais, Municipais e de particulares. Publicamos o material da Fundaj, principalmente o cinema, os eventos do Gole – Gerencia Operacional de Literatura e Editoração da Prefeitura, MAC – Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco – Já fiz a cobertura de três Fliporto, Festivais de Literatura da Cidade, Registro em vídeo de manifestações Culturais como Bumba-meu-Boi, Cavalo Marinho, Maracatu, de Goiana, Condado, etc e mais e mais registros Culturais. Recentemente fiz a cobertura Da FreePorto do Grupo Urros Masculinos. Vocês.
Tenho muito material também sobre exposições passadas. Uma verdadeira coleção de Catálogos das galerias, com os expoentes das Artes em Recife. Material para uma exposição.
E o vetorcultural.com tem muitos projetos a realizar, principalmente na área infantil e com a  Cultura de Raiz, como festejos do interior, etc, coisas que adoro. Além do Projeto Revendo o Recife, que pretende registrar toda a cidade através de fotografias e filmes. Já fiz mais de 4500 fotos e mais de 18 hs de vídeo. É um projeto para 100 mil fotos.

Pata: Quemadmodum quiquic patati pataá? Qüá, qüá…

Pedro: Uma crítica – que as políticas estabelecidas fizessem mais pelas outras Artes, o que faz pela Música. Pelo amor de Deus, como se promove shows, música. Falaram muito nos jornais que o  Carnaval acabou virando uma série de shows… e a Cultura Popular, a Cultura de Raiz, onde fica? E foi o que nós vimos e temos visto.
Vejam, vou citar um lance que ocorreu no primeiro papo com o atual Secretário de Cultura do Recife, Renato L, durante uma reunião com Produtores Culturais na Livraria Cultura no início de sua Gestão, que por sinal, está muito boa, sem babação. E eu disse pessoalmente a ele, que tinha colocado na internet. Ele sabe que falei isso. O lance foi o seguinte: quando a reunião com os Produtores Culturais acabou, ele falou que numa outra ocasião seria marcado outro encontro, pois, como a maioria dos representantes eram do meio musical, foi o único assunto que foi debatido, não sobrando espaço para outras categorias. Entende o que digo sobre música? Ainda sem contar com o poder da TV que é música só. E haja qualidade.
Não temos um só programa, nas TVs abertas, posso estar enganado, que fale sobre Literatura, que mostre os expoentes locais da Literatura. Ou um programa de Artes Plásticas. Nada. Mas a música, quando acaba a programação infantil na parte da manhã, reina inteira.
Ah! Adoro Música. De boa qualidade, é claro.

Pata: Quaquaráquaquá! Quac!

Foto: http://www.vetorcultural.com

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Laboratório Literatura & Crítica

11 de abril de 2010

Nasce um crítico. Estará Wellington de Melo brincando de Deus?

É, após um longo e tenebroso inverno nuclear, causado pelo Carnaval Apocalíptico do Recife,o Observatório Wookiee volta com toda a potência (danadão!), para deixar todos os meus 15,7 leitores bem-informados e alimentados. Incluindo a japonesa, a libanesa e o sullustano. E qual é a maior novidade pra se contar aqui? Respondo-vos:

O Laboratório Literatura & Crítica! Encabeçado por Wellington de Melo e que conta com a colaboração de uma gangue sangue-bão barra pesada (a saber, Bruno Piffardini – em bom português, “eu mesmo”, Cristiano Ramos, Cristhiano Aguiar e Jomard Muniz de Britto), o objetivo do Laboratório é o seguinte: aproximar a Crítica Literária de seu objetivo original (ou que pressupomos original), ou seja, restabelecer a comunicação entre pontos de vista e leituras de mundo, entre público e estudioso, retirando-a do ambiente asséptico das Academias e Universidades. Abolir uma supremacia falaciosa do crítico enquanto erudito detentor – e retentor – de um conhecimento privilegiado, tornando possível a troca de experiências.

Porque afinal, o que é a Crítica Literária senão uma leitura de uma obra, calcada em parâmetros mais objetivos? Uma investigação mais atenta e que não deve fugir do sensível, sem cair na esparrela de uma crítica impressionista? Roland Barthes (grande figura humana), ao tempo de seu “S/Z”, tentara desenvolver uma “teoria da leitura” baseado, numa imagem interessantíssima, naqueles momentos em que o leitor, entretido com a obra, levanta a cabeça de sua leitura e para pra refletir. Bem, teorias da leitura ou não, o exercício da crítica literária também é esse: reunir uma linha coerente de raciocínio baseada nessas reflexões pontuais, uma leitura pontuada por esses momentos de cabeça erguida, e se prestando a tornar público o seu modo de interpretar, sabendo que sua interpretação também será passível de outras interpretações. Se a obra literária (ou a obra de arte em geral) tem sua existência e valor estabelecida por uma determinada polissemia (ou seja, a obra é, grosso modo, uma nova obra a cada leitura, dependendo da interpretação e n elementos vindos de seu leitor), o papel da Crítica é, também, colaborar para ampliar esse leque polissêmico, sabendo também de sua própria multiplicidade de facetas.

Ora, a crítica não lida com absolutismos. Desconfie muito dos críticos que fecham portas e janelas, para sufocar seus conteúdos.

E, já que estamos falando sobre o que é a crítica, “Crítica pra quê?” é o tema da primeira edição do Laboratório! O professor da UFPE Anco Márcio e o jornalista Schneider Carpeggiani discutirão esse tema, junto a Cristhiano Aguiar, o medidador, juiz, júri e carrasco deste debate. E aí? Pra que serve a Crítica? Como é o embate ou a aliança entre academia e periodismo? Só indo lá pra ver… no Teatro Hermilo Borba Filho, dia 13 de abril, às 19 horas. Cconfira o site aqui, inscreva-se já e, querendo mais detalhes, visite nossa linda e sesquipedal Agenda Cultural!

Foto: Empire.com


Literatura? Press Start Button!

9 de fevereiro de 2010

Quem ganhará no "Mortal Kombat do Cosme Velho": o pseudo-morto ou o pseudo-corno?

Hoje eu vi um trailer de um jogo para PC chamado “Dante’s Inferno”. Achei que fosse uma tosqueira catastrófica feito aquele filme de vulcão que tinha esse nome e, para meu espanto, lá está Beatriz sendo arrastada pras Profunda Duzinférno e um Dante porradeiro pulando lá pra dentro, pronto para salvar sua amada das mão do Capiroto em pessoa. Obviamente, sentando o sarrafo em tudo que vê pela frente.

Rapaz, o negócio é interessante, pelo que vi o jogo começa com o Dante Norris nel mezzo del camin dessa vida porqueira, se ritrovando por uma selva oscura, e tá lá até o lasciate ogni speranza vuoi ch’entrate. Os cenários são pavorosos, o Círculo da Luxúria deixaria a pirralhada consumidora de hentai com medo de buceta pro resto da vida, e Cérbero e o Rei Minos dariam pesadelo a qualquer estudioso do Florentino de Jesus. Só senti falta de um Virgílio dobrado armado de metralhadora e bazuca, com cartucheiras cruzando o peito sobre a toga e um charuto de marine americano no canto da boca. Mas tudo bem. Do jeito que vai, é capaz até de um dia rolar cosplay de Francesca da Rimini. Ora essa, é preciso reciclar os clássicos para a juventude lan house, é ou não é?

Mas é claro que é!!! Embora haja um ou outro “estudioso” da literatura que considere que até recital hoje em dia é desrespeito, transformar a literatura em videogame seria um arejamento mental incrível para esses rapazolas. Quer dizer, quase incrível. Uns ou outros deveriam mais era aguardar ansiosos por uma Playboy literária (aí, já temos a Fernanda Young pros rapazes escreverem umas teses no banheiro!). Imaginem só que incentivo nos colégios isso seria? Uma “Ilíada” versão-massive-multiplayer-RPG-do-cacete-a-quatro? O livro já é um World of Warcraft em grego, mesmo. E olha que eu sempre achei “Worms” um tanto quanto Kafkiano, apesar de ter minhocas e não baratas ou coisa que o valha. Bem, angustia geral do mesmo jeito.

Um sucesso estrondoso seria videogamizar Shakespeare. Afinal, segundo Harold Bloom, Shakespeare “é uma espécie de Pac-Man para a literatura moderna” (in “O Cânone Ocidental”, p. 14, 22, 76, 124 e da p. 172 até o fim do livro). Imagina só, “Prince of Denmark”! Hamlet encontra o Príncipe da Pérsia! Garanto logo, a luta com o chefão final, o Rei Claudius, seria muito dura, uma vez que ele ficaria gigante e teria uma espada de fogo de dez metros. Você o derrota com o lança-mísseis que ganha após matar Laertes. E ainda pode jogar com personagens escondidos, como Horatio (um ladino de Carisma baixa, mas hábil em Ataque Furtivo), Macbeth (que tem “damage reduction” contra homens que não nasceram de mulher) e Prospero, que é feiticeiro e lança bolas de fogo +10 e invoca Ariel, Caliban e o Dragão Cromático Mítico das Profundezas Nível Épico.

Ora, nesse espírito de coisas, dois e meio de meus onze vírgula vinte e cinco leitores (excluindo-se o Sullustano, que sei que é conservador – e não o culpo por isso) podem estar perguntando a seus botões: “ora essa, e por que não elaborar projetos voltados à literatura brasileira e utilizá-las como ferramenta de ensino nos colégios, para incentivar a leitura em sala de aula?” Antes que o Grupo de Operações Táticas da ABL surja atravessando os vidros de suas janelas com armas de tranquilizante e camisas de força, eu digo: é, por que não?

Eu já tinha aventado essa hipótese com um grande bróder meu, o Adonai (grande Adonai, nunca mais vi, deve ter sido recolhido para análise pelo GOTABL), e ele havia se questionado sobre a validade dessa iniciativa. E, óbvio, achou lindo! Por exemplo, que tal uma versão GTA para “Capitães de Areia”, do Jorge Amado? Não é mais interessante jogar como líder de um grupo de trombadinhas júnior nas ruas de Salvador do que como um gangsta rapper no Bronx? Ariano Suassuna concordaria em gênero-número-e-degrau.

E, para os fãs de João Guimarães Rosa, nada melhor do que a mais perfeita experiência de imersão em sua linguagem oferecida por “Counter-Strike: veredas”:

– Sinta na pele toda a experiência de estar cara-a-cara com o Liso do Sussuarão!

– Escolha o seu lado: Joca Ramiro ou Hermógenes!

– Experimente todo o poder de fogo de Riobaldo, o Tatarana, o Aratu Branco, usando espingardas, bacamartes, révolveres, um rifle de precisão, granadas de mão e até mesmo um lançador de foguetes afegão!

– Missão de tutorial exclusiva, com narração de meu compadre Quelemém!

– Manual on-line escrito por João Guimarães Rosa!

Cara, deu até vontade de jogar. Era a gota que faltava para a biblioteca de sua faculdade de Letras virar uma lan house. E, para compeltar o pacote, por que não resgatar um antigo sucesso que fez muitos românticos, realistas, parnasianos e pré-modernistas torrarem seus mil-réis nos fliperamas da Confeitaria Colombo no nosso prolífico “fin de siècle”? Sim, meus queridos, isso foi real. Tão real que deu origem a todos os Street Fighters da vida.

Foi o “Mortal Kombat do Cosme Velho”. E isso foi sério.

Foi um marco na história da indústria editorial. Não pensem vocês que o desenvolvimento da literatura brasileira nesse momento, pelo menos no que diz respeito ao desenvolvimento e consumo de romances, se prendia ao folhetim semanal para senhoritas bordadeiras. Nada disso. Os janotas se aglomeravam para jogar partidas e mais partidas deste revolucionário jogo. A citação favorita dos intelectuais não era “melhor cair das nuvens que do terceiro andar” e sim “Round… one… FIGHT!”. E claro, ao vencedor, sempre cabiam as batatas.

Lutas fenomenais em cenários interativos, nos quais você podia jogar o adversário na frente de uma caleche… como a Rua do Ouvidor, com suas estacas afiadas esperando por um fatality… E o que dizer de Marcela, a precursora de Chun-Li e similares? Nada melhor do que finalmente realizar um duelo entre Quincas Borba e Simão Bacamarte, o alienista! Ou quem sabe vingar Bentinho e fazê-lo surrar Escobar? Ou surrar Capitu? Ou ser surrado por Brás Cubas? Ou ser surrado por todo mundo porque ô personagem lamentoso e, enfim, casmurro, de torrar o saquinho que ele é, benzadeus!

E, ah sim, reza a lenda – ninguém conseguiu comprová-la até hoje, é que nem o peixinho que aparecia em “Frostbite” no Atari – que, se você ganhasse de nocaute trezentas e doze lutas seguidas com o mesmo personagem, seria liberado um combate com dois personagens secretos: Machado de Assis e José de Alencar. Às portas da Igreja do Diabo. E numa ponte suspensa sobre azeite fervendo. É, todo mundo sabia que essa animosidade poderia render um fatality, muito cavalheirescamente, diga-se de passagem.

Não é uma coisa bonita? E parece que ainda exportamos a ideia, não só para os americanos e japoneses, mas como para os portugueses também, que tinham em seus cafés ao longo do Chiado um fliperzinho chamado “Pugilista de Bulevar” (em bom português, “Street Fighter”), em que Carlos da Maia pod’ria sovar os cornos do Primo Basílio, o Padre Amaro levaria umas bengaladas de Jacinto de Tormes e, dizem, você poderia sentar a mão em Teodorico Raposo jogando como sua inefável Titi.

Estão vendo só como funciona? Sabe, eu estou ansioso em experimentar o “Dante’s Inferno”,  o primeiro videogame em “terza rima” da história.  Agora, a grande pergunta é: quando farão jus a esse nobre personagem de gerações e gerações, de influências homéricas, dantescas e virgilianas, e darão ao Super Mario sua tão merecida epopéia em versos heróicos?! O desafio tá lançado. FIGHT!

Foto-montagem: Niti Merhej


Bob Dylan no “Quinta-pra-Sexta Musical”

5 de fevereiro de 2010

Peça pra ele falar "um prato de trigo para três tigres tristes".

Passei essa semana ouvindo meu albumzinho há muito perdido “John Wesley Harding” do Bob Dylan. E, incrível quanto possa parecer, eu tenho asse disco originalzinho, nada de visitas ao Torrent ou ao E-Mule. E ainda paguei uma barbada ridícula por essa belezoca. Eu recomendo o disquinho a todo vocês, meus 11,74 leitores, incluindo a libanesa, a japonesa e o sullustano, principalmente se forem fãs do nosso fanho favorito.

É um disquinho difícil de se achar por aí. O nome foi inspirado no famoso fora-da-lei john Wesley Hardin, figurinha que você não gostaria de encontrar na estrada à noite, dentro duma diligência, e que até deu umas esbarradas no mais famoso ainda Wild Bill Hicock – aquele que levou uma bala nas costas jogando pôquer em Deadwood (ê lugarzinho bão de se viver).

Mas, voltando ao fora-da-lei do título: Bob é o cara, não tem por onde. Destrói só com o violãozinho e a gaitinha. Não precisa de mais nada. Já rolaram uns papos por aí que ele sai plagiando um pessoal obscuro em suas letras (e entram uns japoneses nisso, sacumé, os caras escrevem pra caramba e a gente aqui, no Ocidente Acidentado, nem faz ideia), mas quem se importa? Os autores. Claro. Mas, afora eles, quem se importa? Os diereitos autorais. Mas fora eles… tá certo, tá certo, muita gente se importa, mas o Bob não e, no frigir dos ovos, nem eu. Quando ele me plagiar (oh, sonha com isso, sapão), eu dou um tiro nele e pronto, a la John Wesley Hardin. Quem vai se importar? Um bando de hippie anacrônico que vivia doido pra invadir a casa dele pra pedir um autógrafo, e o bob, segundo consta de uma antiga entrevista, mantinha uma espingarda ao lacance da mão, ao lado da cama, pra afugentar esse pessoal doido. Mas quem se importa em levar um tirambaço do Bob? Os japoneses plagiados talvez, and so on and on and on.

Enfim. Dizem que o Chico Buarque compreende a alma feminina. Já o Bob, esse compreende a porra toda. Só não compreende o Zé Ramalho, que bate bate bate na porta do céu. Falando nisso, eu sou uma das poucas pessoas que conheço que gosta das músicas do Bob interpretadas pelo próprio. Tirando “Hey mr. Tambourine Man”, que é perfeita com o The Byrds, e o “All Along the Watchtower”, com o Jimi Hendrix, que vale pagar um pau. “Like a Rolling Stone” mesmo, pra mim só presta com a fanhice dele. Foi mal, Mick.

Bom, sem mais, deixo aí o “Subterranean Homesick Blues”, que não é a minha favorita (espaço que reservo a “Rainy Day Women” e outras), mas o videoclipe merece a espiada. E não, não curto. Saquem no clipe a presença especial de Allen Ginsberg, poeta da Geração Beat, autor de “Howl” e “Kaddish”, que era brother de Dylan e fez altas coisas com o rapaz. Ah, o Dylan era todo conectado por ali, Jack Kerouac e tal, não deixa de ser ele próprio um beat, em minha modesta opinião, mas isso é papo pra um ensaio acadêmico inteiro. Curtam aí:

E agora uma favorita minha, que na falta de um videoclipe legal, vai na abertura do filme “Watchmen”, baseado no quadrinho homônimo e de que sou fã. A música é “The times they are a-changin'”, e a sequência de abertura do filme, embalada nesse som, é perfeita. Bom, o que esperar de um filme que tem essa música nos créditos iniciais, logo após uma abertura de pancadaria com “Unforgettable” com Nat King Cole? Com certeza, nenhum Quarteto Fantástico.

Aliás, falando em boa trilha sonora de filme, deixo a dica (e talvez um dia teça um comentário): “The Blues Brothers” (em mal português, “Os irmãos cara-de-pau”). É um tipo de filme da Xuxa, só que no lugar de Ivete Sangalo e Jota Quest (eles ainda vivem?), rola participação de James Brown, Ray Charles, Aretha Franklin e Cab Calloway. Aí, com essa, torçamos por “Xuxa e os doentes 3”, com Chico Buarque, Caetano Veloso, Miúcha e Belchior! As criancinhas irão se importar!

Foto tirada do site folkmusic.about.com


Roberto Piva in da house

1 de fevereiro de 2010

Piva escrevendo um poema. Ou uma receita de bolo. Poeta também é gente, caramba.

Este é um post breve, apenas para redirecionar os meus preciosíssimos 9,45 leitores (incluindo a libanesa, a japonesa e o sullustano) para o link de um texto meu sobre Roberto Piva – meu poeta brasileiro favorito e responsável pelo meu título tããão importante de Mestre em Teoria da Literatura – que foi publicado esta semana no site do Café Colombo:

http://www.cafecolombo.com.br/2010/02/01/diagnostico-roberto-piva/

Para quem não soube, nessas semanas que se passaram, Roberto Piva andou bem doente, devido a complicações com seu Mal de Parkinson. E não, não farei piadas do tipo “esse alemão que gosta de agitar a gente mais que trio elétrico da Ivete Sangalo” por que o assunto é sério e não estou lá muito bem-humorado esses dias.

Apenas saibam que é muito lamentável ver que um escritor da magnitude desse senhor está aí, fraco e sem condições financeiras, mesmo com sua obra reunida tendo sido publicada muito recentemente, dependente da ajuda de amigos e admiradores. Não que eu esteja pregando que ele mereceria um atendimento vip e exclusivo através de burlos no sistema de saúde (confiram o site de Wellington de Melo para uma crítica pontual a esse privilegismo, aí entre os meus links): reclamo sim que o estado, o mercado e a puta-que-pariu não sejam capazes de respeitar os seus artistas – não que um artista deva ser considerado acima do cidadão comum, mas é triste saber que sua condição é a de viver com um pires na mão. Quando a profissão de escritor será considerada válida, a um ponto em que ele mereça direitos e proventos oriundos do suor de seu rosto (sim, porque literatura ainda é uns 90% transpiração), e não ser alienado dentro de um sistema de molas e rodas dentadas capitalistas e burocráticas de editoras e instituições culturais e etcétera? Um pouco de dignidade à classe faz bem à vista e ao coração.

Bem, leiam lá o textinho. Espero que os admiradores gostem de minhas mal-traçadas linhas, e que os que não conheçam Roberto Piva sintam despertar o interesse em lê-lo mais e mais. Eu, assumindo a responsabilidade que cabe à minha profissão de fé e meu diploma (é, senhor crítico, sua responsabilidade é essa, e não a de alimentar seu eguinho com Sucrilhos), me coloco a disposição de quem quiser se embrenhar na poesia de Piva. Basta me escrever, com açúcar e afeto. “Nada vos oferto/ a não ser essas mortes de que me alimento” (isso é Ferreira Gullar, necessário se faz dizer).

E, como um bônus ao texto pro Café Colombo, incluo aqui o trecho final de “Meteoros”, que deveria ter saído e não saiu. Tudo bem, cena excluída é legal pra fazer uma “Versão do Diretor” – O Harrison Ford se descobre um Replicante, Galadriel dá seus presentes, Hollis Mason é assassinado e nós lemos “Meteoro”, de Piva. Olho no lanceee!

(…)

Eu apertava uma árvore contra meu peito

Como se fosse um anjo

Meus amores começam crescer

Passam cadillacs sem sangue os helicópteros

Mugem

Minha alma minha canção bolsos abertos

Da minha mente

Eu sou uma alucinação na ponta de teus olhos.

(Roberto Piva, “Meteoro”, in Paranóia)

Meus agradecimentos a Renata Santana e à equipe do Café Colombo. Acessem o site na barra de links ao lado. Se escarafuncharem um pouco, talvez achem uma entrevista comigo e Artur Rogério, pro Rádio. Mais, não digo. Tomem mais Piva aí e extasiem!

http://www.youtube.com/watch?v=P2Lhaedkh48

Foto: Rita Alves, projeto “Autor na Praça”, site Overmundo


Biagio, fale com minha pata!

22 de janeiro de 2010

Biagio contempla um ovo de pata.

In-Margens no. III: Caapiuar-Sushi é a terceira instância do projeto performático que Biagio Pecorelli deu início exatamente em 20 de julho de 2009. Para aqueles dos meus leitores que não o conhecem (é, dos sete, temos uma libanesa e um sullustano, então aquele abraço pros dois), tudo começou com Lunatic: you’re not here, quando – na manhã do aniversário da chegada do homem à Lua – Biagio desceu a Conde da Boa Vista vestido de astronauta para fincar uma bandeira selenita em pleno rio Capibaribe, representando toda a população lunática nessa conquista. Algum tempo depois, em In-Margens no. II: Sorry, I pushed the crab and it fell down, Biagio assumiu o atentado terrorista do sumiço da Estátua Horrenda de Chico Science na Rua da Moeda: sendo assim, fora amarrado no Poste do Chico (ôee!), humilhado e esculachado, com uma coroa de caranguejos vivos na cabeça, implorando desculpas aos passantes e prometendo “nunca mais fazer aquilo”. Biagio sobreviveu, os caranguejos também e, tal qual Cristo, Chico Science voltou à Moeda, vindo da Mansão dos Mortos no terceiro dia (mais ou menos). E agora teremos Caapiuar-Sushi, este encontro entre o japonês e o tupi, que curiosamente é a primeira perfomance que não será necessariamente pública. Participará com Biagio a atriz Camilla Rios, o jogo de xadrez será registrado pelas lentes de nosso cineasta Alex Guterres.

Mas, para nosso deleite e melhor compreensão desta e todas as outras In-Margens, segue a palavra de Biagio, inaugurando nossa seção “Fale com minha pata”. Vamos conferir o plá (ou melhor, o “quá-quá”) que rolou nesse encontro?

Pata: Qüem, quá-quá-quá qua quá quoc 03 squeac?

Biagio: In-Margens não é uma trilogia. No começo até passou pela minha cabeça essa ideia, mas não pretendo parar por aqui. Quero aprofundar esse tema, transitar em suas diversas linguagens. In-Margens tem se constituído como meu laboratório e tenho procurado cultivar, sem pressa, esse processo. Trabalhando ao lado de pessoas queridas, como o Alex Guterres (videasta), Camilla Rios (atriz), Milena Andrade (produtora), Deborah Guaraná (fotógrafa). Tudo isso tem me ensinado muito não apenas como artista, mas com pessoa. O fato de ser um projeto absolutamente independente me põe o tempo todo diante de mim e dos meus desejos e loucuras. Impõe sempre esse desafio de materializar os conceitos, de fazer do verbo carne, de mover os moinhos. Termino Caapiuar-Sushi e já tenho em mente o esboço das In-Margens IV, V e VI.

Pata: Quaqua-quá “In-Margens no. 1 “Lunatic: you’re not here”, quáquáquá-qüem.  Squeak, “Sorry, I pushed the crab and it fell down”. Quoc, quáquá-qüem qui-qui (quac, quac, quac und quoc-quoc). Quaraquáquá “Caapiuar-Sushi”? Quemquem, “sushi” und “capivara”?

Biagio: Engraçado ver você, uma pata (com todo respeito) fazer essa leitura destes dois trabalhos. Isso mostra que eles se conservam “abertos”, como aliás deve ser para mim o campo da arte, ao ponto de permitir esse entendimento de crítica à arrogância norte-americana ou ao endeusamento de Chico Science. A questão, do meu ponto de vista como criador, é outra. Mas é verdade que muito pouco se pode extrair concretamente de In-Margens, por enquanto. Creio que o todo irá mostrar melhor do que cada performance, vista isoladamente. “Lunatic” foi o pontapé inicial de um projeto sob o qual não tenho amplo domínio, um processo que me escapa, tudo que devo fazer é ir atrás dele, procurando. Observo muito a cidade e seus brinquedos (costumo ver brinquedos nas paisagens, nos monumentos, nos hábitos arraigados na cultura). A cidade é o parque de diversões do performer. Seria mais lúdico, se não tivesse também uma dor e um pathos, quem cria bole com demônios. Mas tenho aqui em mente um foco temático bem definido. O título In-Margens já remete a algo que está paradoxalmente dentro da margem. Acho isso óbvio, e gosto de ser óbvio nisso. Abordo nessa série a relação entre o típico e o universal, ou como prefiro, entre o endógeno e o exógeno (se é que essas coisas existem no mundo globalizado). Isso é tudo. É um tema já bem mastigado desde o modernismo, o tropicalismo o abordou fortemente nos anos sessenta não só através da música, mas no teatro de um Zé Celso Martinez Correa, por exemplo; o armorialismo na década seguinte quis impor reacionariamente o purismo da identidade nacional e nordestina, é um tema muito mastigado e nunca bem digerido – a verdade é essa. O próprio manguebeat dá um passo importante ao transfigurar a imagem da música de Pernambuco e de seus brinquedos populares, fundindo-os em sonoridades universais. Os caras ajudaram (sem desconsiderar o que foi feito antes pelo udigrudi) a tirar esse “cabaço” de uma cultura canavieira e purista, com essa imagem maravilhosa da parabólica na lama. Isso há quinze anos atrás. Agora essa transfiguração tornou-se status quo (basta lembrar que temos um secretário de cultura mangueboy). A história é assim. Mas, voltando, em toda a série estará presente essa questão, ora refletida na tensão entre cultura de massa X regionalismo, ora pela provocação aos elementos mais simbólicos dessa cultura local, ora, ora, ora. Acho que esse entendimento começa a nascer em mim há pelo menos uns três anos, quando vivia no sul do país e em Buenos Aires (Argentina), e nas andanças me perguntavam se eu tocava alfaia ou fazia xilogravura ou recitava cordel, posto que sou artista de Recife. Foi neste momento que percebi que não tinha raiz, que minha arte era do mundo e que Recife é um lugar do mundo e que há muitos artistas nessa cidade que fariam exatamente o que fazem (do ponto de vista estético) se produzissem em Tóquio, em Oslo, Roma, Tel Aviv ou Saturno. Descobri que estava e estou aqui por acaso – a despeito da saudade que tinha e tenho desta cidade, mesmo estando hoje nela. In-Margem Nº 3: Caapiuar-Sushi transparece mais claramente que nas duas performances anteriores esse interesse temático. É uma partida de xadrez entre uma gueixa e um ser primitivo, mítico. Ela joga com sushis e ele, digo, eu jogo com pedaços de bonecos humanos. Ninguém vence. Eu saio bem alimentado, ela fica sozinha. Evito, sobretudo nesta performance, argumentações mais racionais. Respeite meu sonho.

Pata: Quaraquaquá “happening”. Quac?

Biagio: Essa coisa de “happening” e performance são nomes que foram dados – porque não suportamos conviver com a obscuridade dos fenômenos, com coisas sem palavras – lá pela metade do século passado a experiências artísticas que não cabiam em nenhum campo da arte especificado até então. “Happening” passou a designar experiências mais espontâneas, as experiências originais que vêm desde o futurismo italiano, o construtivismo russo, o dadaísmo, o surrealismo enfim. “Performance” é aquilo que começou a se consolidar como linguagem já a partir dos anos 70. Não tenho grande experiência com isso, patinha, estou apenas começando. In-Margens é o meu primeiro projeto mais sólido na área. Antes apresentei, dentre outras, PROCURO-ME, aqui em Recife, no SPA2007 e em Buenos Aires, no mesmo ano, sempre em parceria com o também pernambucano Ângelo Fábio. Nos anos de 2008 e 2009 fui me tornando “especialista”, vamos dizer assim, devido à minha experiência original com literatura, nessa coisa de fundir o ato de recitar poesia na performance, prefiro dizer, “dar corpo ao poema” – porque é isso que procuro fazer. Ainda como um experimento, por isso não repito, porque não acho que tenha feito nada ainda digno de ser visto uma segunda vez. Do meu ponto de vista, a linguagem da performance já não tem a mesma função iconoclasta e demolidora que tinha em sua gênese. Estamos em outro contexto histórico, para mim, um contexto de reconstrução, o século XX deixou tudo espalhado e cumpriu assim sua tarefa. Entretanto, cabe dizer que faço questão de guardar um pé ali, naqueles movimentos, quero dizer: arte para mim precisa provocar, ou transcender, subverter uma ordem que não é necessariamente a ordem política ou moral stricto sensu, mas a ordem do “olhar” e do corpo. É uma longa conversa. Tem um quê de metafísica, entende? Não basta “ser interessante”, como diziam os minimalistas, interessante uma bunda bem-feitinha ou uma caneta com cheirinho de chiclete também o são. Está cheio dessas “coisas legais de se ver” na arte contemporânea. Acho isso um tédio.

Pata: Quáqua “performance” querequec und quac quac. Qui-quae-quod, Alejandro Jodorowski oder “Homem-Aranha Gay”, squauck qüem-qüem “Performance” und “Happening”?

Biagio: Creio que já respondi parcialmente. Sobre o Alejandro Jodorowski não posso falar nada, conheço só de nome. Sobre o Pânico na TV, não acho, sinceramente, que suas ações possam ser consideradas performance, ou pelo menos, não “performance art”. Isso é foda. A polissemia desse termo é impressionante. Você coloca no Google “performance” e vai aparecer de tudo, de produtos eróticos à automobilísticos; de musas do cinema pornô à jogadores de futebol americano; produtos eletroeletrônicos, espetáculos de circo, dança, foto de baiana fazendo acarajé em Amaralina, tudo. São geralmente coisas ligadas a idéia de “desempenho”. Performance como linguagem artística é outra coisa bem diferente. No cotidiano, quando vemos alguém fazendo uma coisa esquisita ou trangressiva não é raro a gente ouvir alguém comentar “é uma performance”. É aquele tipo de palavra que serve para tudo e não diz nada. Performance como linguagem artística é outra coisa bem diferente – repito. E a fórmula não está se desgastando, porque performance não tem fórmula. Acho que o que está se desgastando é a criatividade de muitos artistas na atualidade, que pensam num conceito qualquer, inventam uma performance que todo mundo vai olhar e vai dizer “que bonitinho, eu quero participar” e daí? A questão não é ser “interativo”, não é explodir os espaços tradicionais da exposição artística (galerias, teatros, palcos), não é fundir as linguagens, isso tudo já foi feito demais. Chega de se limitar ao tema da Não-Arte. Tudo bem, só espíritos velhacos hoje ainda têm aquela ideia de que arte tem que estar na tela ou esculpida em bronze ou barro, ou escrita em versos sublimes e metrificados, ou tocada a violino e com compasso definido. Já incorporamos o visual ao poema, o corpo (inclusive o corpo do “espectador”) às artes plásticas, o ruído e o silêncio à musica, o caos ao teatro. A questão agora é o que você quer manifestar com essa arte e se você consegue manifestar e atingir as pessoas, seja num tema mais intelectivo, reflexivo, seja puro ritual ou sensações físicas. Isso existe ainda, claro, e não é pouco não. Mas também há muito engodo, muita arte “legalzinha”, pra entreter. Voltando ao Pânico na TV, não há pesquisa de linguagem – pelo menos não estética – o que há é “provocação”, estritamente humorística, e necessidade de audiência. Não vejo problema nisso, só não conto como performance, tampouco como arte. Ademais, prefiro o CQC [risos].

Pata: Quemadmodum quac-quac 3,1416… quiquic… quaraquá no tchá-tchá-tchá?

Biagio: Música foi minha porta de entrada na arte, hoje dedico muito pouco investimento a esse campo. Tenho muita coisa escrita e inédita, minha cara patinha. Terminei de compilar recentemente poemas que fiz ao longo de 2008 e 2009 e queria lançar esse ano ainda. Mas tenho um romance parado, uma novela, três livros de contos terminados, fora o material de poesia e fotografia que foi produzido na Argentina (tão longe dentro do olho do xié) ainda em 2007 e permanece até hoje inédito. Quando dei conta dessa volúpia toda em escrever, me perguntei onde quero chegar com isso. Fui à praia, chupei um picolé de milho verde, vi umas cores que não existem [risos] e não escrevi mais nenhuma palavra, há meses, desde a FREEPORTO. Tenho dedicado tempo e vida à leitura e a pequenos prazeres da vida (sexo, drogas e Ângela Ro Ro, que tenho escutado muito). Nesse momento, depois de tanto escrever, acredito que estou começando, só sei assinar meu nome, moça. Deve ser o Retorno de Saturno.

Pata: Squonc quicquid quá-quá?

Biagio: Pergunta já respondida. Posso pedir uma coisa? Põe um ovo pra mim.

Pata: Quaquaqui, quaqua-qüá?

Biagio: Adoro ovo. Qualquer tipo de ovo. Mexido, cozido, de pato, de codorna, de galinha, de páscoa. Raramente como, mas olho com bastante atenção.

Pata: Quá-quá quaac.  Qüem Qüem!

Biagio: Obrigado.


Sinais de que seu planeta pode ir pro espaço!

17 de janeiro de 2010

Segura na mão de Elvis, segura na mão de Elvis...

O frege do momento em todo o mundo, afora o filme do Lula e as Olimpíadas no Rio de Janeiro, é sem sombra de dúvidas o fim do mundo (como o conhecemos). É, dois mil e doze pelo visto não verá o especial de fim-de-ano do Roberto Carlos. Ou pode ser que o Calendário Maia acabe em 21 de dezembro de 2012 porque faltou espaço pro doido lá continuar escrevendo, mas isso nunca saberemos.

Mas como saber disso com certeza, meus 6 e 6/8 leitores? Nostradamus furou feio com 1999, a menos que por “Fim do Mundo” leia-se “A Ameaça Fantasma”. Os charlatões de alugel não acertam mais nem o vencedor do Big Brother. E aí, como a gente fica? Foi pensando nisso que eu me lembrei das antigas tradições que rezam que Deus impregnou o Livro Sagrado de respostas que podem ser obtidas através de cautelosa análise do chamado “código da Bílbia”. Como eu não sou rabino, cabalista ou estudioso de numerologia e do Talmude, tomei o caminho mais rápido: comprei a Bíblia na voz de Cid Moreira e o toquei ao contrário no começo do Evangelho de João (quando ele descreve a vinda do Príncipe Negro de Todos os Sortilégios).

Para meu espanto, ouvi nitidamente uma mensagem secreta narrada pelo Wagner Montes. E, para meu maior espanto ao em vez de ouvir “Paul está morto” ou “escove seus dentes entre as refeições”, eu ouvi claramente a voz de Wagner descrever os principais sinais que indicam a aproximação do cataclisma mundial (traduzindo o português de Portugal, “quando mundo vai descer inteiro pela descarga”). O sinais são claros e pertubadores. Bem, como já dizia o Sílvio Luís, confira comigo no replay!

1o. sinal: “Então nascerá na cidade de Viçosa um bezerro maldito de duas cabeças, ambas com a cara do Sílvio Santos”;

2o. sinal: “Da primeira vez o mundo foi consumido pelas águas; da segunda a terra será consumida pelo fogo, mas rolarão uns espetinhos de gato e uns marshmallows para todo mundo assar enquanto espera”;

3o. sinal: “Na terceira hora do terceiro dia [que diabos isso quer dizer eu não faço a mínima ideia] o Reino Virá à Terra e aos homens de bem, na pessoa do verdadeiro Rei, o que morreu sem nunca ter morrido, que se revelará a todos com um disco só de inéditas produzido pelo Timbaland, contendo três remixes e participações especiais de Snoop Dogg Dog e Mallu Magalhães”;

4o. sinal: “A Besta do Apocalispe se revelará com suas treze cabeças e seus trinta e dois chifres, mas parcelada no carnê em até 30-60-90-120 dias, sem juros”;

5o. sinal: “Se nada disso acontecer, não temei, porque essa porcaria de sol, em uns porrilhões de anos, vai explodir mesmo e levar pra merda o planeta, dando sumiço a toda vaidade humana, aos elefantes, às suas nações, aos seus monunentos, à sua literatura e à sua coleção de Playboy, como se nada desta mixórdia tivesse acontecido, então larga mão de se achar a última bolacha do pacote e vai ser uma pessoa boa na vida, seu cretino”.

Bem, caso você constate um desses sintomas em seu planeta, ligue pra Defensoria Pública mais próxima e peça para que redirecionem a sua ligação para o Vaticano. No máximo, o Papa vai mandar dizer que está ocupado fazendo seu Sudoku. É, ninguém é perfeito e a vida é assim.