Pedro Rodrigues, fale com minha pata!

14 de abril de 2010

Lucélia Santos não resistiu e pediu pra fotografar com Pedro!

Se você frequenta a cena cultural recifense, com certeza já esbarrou com Pedro Rodrigues. Há quem desconfie que ele tenha parentesco com o famoso Multi-Homem, do célebre documento-verdade da década de sessenta “Os impossíveis”, porque ele está em tudo. E quando digo tudo, eu digo TUDO (em bom português, “évrissin”, “évriuér”). Pedro sempre está por aí, câmera fotográfica e filmadora, atento a todos os sinais de vida inteligente (e até semi-inteligente) da movimentação cultural e artística de Pernambuco. É batata. Ele é o homem certo, na hora certa.

Mas quem afinal é ele? O famoso “Pedro do Vetor Cultural”? O Vetor Cultural é uma das mais ousadas iniciativas que temos aqui. Não apenas uma enorme agenda cultural, o Vetor é um gigantesco acervo contendo tudo o que se faz e se fez na cidade. Acho que, se bobear, além da cidade. Pedro Rodrigues nos proporciona, nada mais, nada menos, que uma memória viva de nossa história.

Mas engana-se quem pensa que Pedro é só Vetor. Poeta e artista plástico, e dos bons. Quer conhecer mais dele? Visite o Letra Felina. O caminho pro Vetor e pro Letra você também encontra nos nossos sesquipedais links aí a lado! E se quer conehcer direto da fonte, vá ao Nós Pós dessa quarta-feira, dia 14 – as coordenadas nosso colaborador Leslie Nielsen dá pessoalmente aqui.  Bom, sem mais delongas… sabe tudo aquilo que você sempre quis saber sobre Pedro Rodrigues, mas tinha medo de perguntar? Aaah, rapaz, a Pata não teve medo. E perguntou! Sem mais patati, mas com patatá, Pedro Rodrigues… fale com minha pata!!!

Pata: Quaquác quid “Pedro von Kulturvektor”, but qüemqüem quaquaquá quisquis, oder qüem oder qüá. Quaraquá quack ?

Pedro: É mesmo, 37 anos de Artes Plásticas e 29 de Literatura. Mas muito mesmo eu tenho de invisibilidade. A maioria de meu trabalho está entocado. Engavetado. Uma palhinha apenas: 18 livros escritos, mas nenhum publicado. Agora, os quadros, a parte de Artes Plásticas é mais complicada. Consegui reunir mais de 12 mil desenhos meus. Criação própria. Desenhos de todos os tipos, em papel de pão, papel de embrulho, entre outros. A coleção de desenhos em guardanapos é imensa, assim como os poemas. Tenho muita coisa escrita em guardanapo, memórias da época em que tomava uns mé. Agora me ligo muito em Capuccino e Cafés. E continuo a ir nestes lugares para desenhar. E continuo desenhando nos guardanapos.
Tenho também mais de 20 anos de Fotografia. Estudei com Firmo Neto, que, na minha opinião foi o maior fotógrafo de Pernambuco. Talvez do Nordeste.
Viajei um pouco na área de escultura, gravura, colagens. Fiz uma série muito interessante de esculturas dentro de aquários no início da década de 80. Estudei com Cavani Rosas no atelier Aurora.

Pata: Quicquid enim florui “Surrealismus” quack? Qüaráquáquá quéck? Qüararaquá squeak quequéc qüic quá?

Pedro: O Surrealismo como movimento, realmente já acabou, mas a idéia em si, de entrar no mundo além do real, no mundo onírico, ainda existe em muitos artistas. A idéia, para mim, de retratar o real como se conhece, é maçante. Gosto da maneira como retrato as coisas que pinto. É uma aventura.
O surrealismo hoje tem muitos representantes, mas muitos trabalhos se confundem com o Futurismo e outros estilos.

Pata: Quaráqüá quack quack qüem “Poetas Humanos”. Quaquá araraquara quoc, quiquiqui, quaquaquá, quarack quack squonc…!

Pedro: Não havia Cultura Recifense na época, como se faz hoje… Não havia Divulgação Cultural como se faz hoje. Não havia projetos, pelo menos, da forma que vemos hoje; nós não tínhamos conhecimento disso, justamente por não haver um movimento Cultural legítimo. Se falava muito em panelinhas, em preferidos das galerias e marchands. Os nomes estão ai para muita gente ver e todos sabem, mas ninguém fala.
De certa vez, levei umas fotos de quadros meus para uma pessoa envolvida com Arte, para que visse o que eu fazia e ele pediu que eu guardasse. Me tirou um livro de dentro da gaveta, disse que minha técnica era muito boa, mas pintando o que eu pintava ele não poderia fazer nada, mas se eu pintasse quadros parecidos com aqueles do livro ele compraria todos. Um outro caso, no Rio, um Galerista me pediu para pintar quadros parecidos com umas fotos que ele me mostrou que compraria todos. Mas que eu pintasse sem assinar. Eu me desencantei e quase parei de pintar.
Os Poetas Humanos. Cara, por favor. Isso me emociona muito… Muito. O que nós fizemos como Poetas Humanos, é realmente o que o Urros faz hoje, o que a Freeporto faz hoje. Sem querer de jeito nenhum diminuir o trabalho de vocês, que é grandioso. Nós tínhamos uma liberdade, imensa, imensa. Nós produzíamos muito. Nos reuníamos, fazíamos recitais, muitos na minha casa, publicávamos pequenos jornais de poesia, como o Coelho Paranóico, Felino pela Arte, entre outros. Mas cometemos a irresponsabilidade de fazer aquilo de maneira muito fechada. Não procuramos nos expandir e não tínhamos, por exemplo, pessoas como vocês, do Urros, da Freeporto, e outros, que conseguem visualizar e ir atrás de quem realmente produz Arte, produz Cultura. Éramos eu, o Denis Maerlant, o Marcelino Freire, Renato Siqueira, Regis Soares,  Adrienne Myrtes, Marcos Pinheiro de Melo, Jefferson Peixoto, e de vez em quando entrava um ou outro que fazia parte das leituras.
Cara, certa época,  vendíamos cartões poemas, nos bares. Mustang, Tio Patinhas. Fazíamos cartões tamanho postais e ilustrávamos a frente com nossos desenhos e nas costas colocávamos um poema. Tudo em serigrafia. Era demais.

Pata: Quisquis “Vetor Cultural”? Quaqueck quaquá, quid “Vetor” qüer?

Pedro: Mana, você sabia que eu já fazia o VETORCULTURAL.COM com 11 anos, quando nem existia internet ainda? Eu sempre viajava com a família, para as praias. Época das vacas gordas…Quando chegava nestas praias, o que mais me chamava atenção era a vida nas colônias de pescadores. Me lembro que tinha um mini-gravador e andava pelas colônias de pescadores gravando as músicas e conversas das comunidades. E fotografando. Este trabalho todo se perdeu. Coisas de desorganização mesmo. A gente não imagina como será no futuro. Tive uma adolescência muito tímida e para mim tudo parecia impossível, menos sonhar…
O vetorcultural.com dos dias de hoje, nasceu de um papo com um amigo, pois não tinha como divulgar meus quadros. Ele disse: coloca na internet. Eu aos poucos fui me informando sobre “isso”. Consegui colocar alguns quadros na internet. Página, que não era página, mal feita. Depois, uma amiga me pediu para colocar um panfleto de uma peça que ela estava trabalhando. Eu coloquei e ficou legal. Ela falou que o pessoal recebeu uns e-mails com o panfleto da peça. Eu tinha enviado. Daí me veio o pensamento: “por que não colocar outras coisas na internet, na minha página. Conheci um cara na estrada de Ipojuca, chamado Nelson Nay, que faz máscaras de cerâmica. Coloquei as máscaras dele no site. Acabei comprando algumas com o passar do tempo. Hoje tenho cerca de 30 máscaras feitas por ele, acabei aprendendo a fazer também e me tornei padrinho de filho dele, o Gabriel. Somos grandes amigos, hoje.
E o vetorcultural.com hoje conta com mais de 1500 páginas online, mais de 100mil fotos e mais de 350 horas de vídeo como acervo. Não sei contabilizar o que tenho mesmo. Além dos livros que sempre compro. Pretendo abrir para breve a Sala de Leitura do Vetorcultural.com.
O vetorcultural.com hoje publica gratuitamente a agenda Cultural dos principais órgãos de Cultura, Estaduais, Municipais e de particulares. Publicamos o material da Fundaj, principalmente o cinema, os eventos do Gole – Gerencia Operacional de Literatura e Editoração da Prefeitura, MAC – Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco – Já fiz a cobertura de três Fliporto, Festivais de Literatura da Cidade, Registro em vídeo de manifestações Culturais como Bumba-meu-Boi, Cavalo Marinho, Maracatu, de Goiana, Condado, etc e mais e mais registros Culturais. Recentemente fiz a cobertura Da FreePorto do Grupo Urros Masculinos. Vocês.
Tenho muito material também sobre exposições passadas. Uma verdadeira coleção de Catálogos das galerias, com os expoentes das Artes em Recife. Material para uma exposição.
E o vetorcultural.com tem muitos projetos a realizar, principalmente na área infantil e com a  Cultura de Raiz, como festejos do interior, etc, coisas que adoro. Além do Projeto Revendo o Recife, que pretende registrar toda a cidade através de fotografias e filmes. Já fiz mais de 4500 fotos e mais de 18 hs de vídeo. É um projeto para 100 mil fotos.

Pata: Quemadmodum quiquic patati pataá? Qüá, qüá…

Pedro: Uma crítica – que as políticas estabelecidas fizessem mais pelas outras Artes, o que faz pela Música. Pelo amor de Deus, como se promove shows, música. Falaram muito nos jornais que o  Carnaval acabou virando uma série de shows… e a Cultura Popular, a Cultura de Raiz, onde fica? E foi o que nós vimos e temos visto.
Vejam, vou citar um lance que ocorreu no primeiro papo com o atual Secretário de Cultura do Recife, Renato L, durante uma reunião com Produtores Culturais na Livraria Cultura no início de sua Gestão, que por sinal, está muito boa, sem babação. E eu disse pessoalmente a ele, que tinha colocado na internet. Ele sabe que falei isso. O lance foi o seguinte: quando a reunião com os Produtores Culturais acabou, ele falou que numa outra ocasião seria marcado outro encontro, pois, como a maioria dos representantes eram do meio musical, foi o único assunto que foi debatido, não sobrando espaço para outras categorias. Entende o que digo sobre música? Ainda sem contar com o poder da TV que é música só. E haja qualidade.
Não temos um só programa, nas TVs abertas, posso estar enganado, que fale sobre Literatura, que mostre os expoentes locais da Literatura. Ou um programa de Artes Plásticas. Nada. Mas a música, quando acaba a programação infantil na parte da manhã, reina inteira.
Ah! Adoro Música. De boa qualidade, é claro.

Pata: Quaquaráquaquá! Quac!

Foto: http://www.vetorcultural.com


Biagio, fale com minha pata!

22 de janeiro de 2010

Biagio contempla um ovo de pata.

In-Margens no. III: Caapiuar-Sushi é a terceira instância do projeto performático que Biagio Pecorelli deu início exatamente em 20 de julho de 2009. Para aqueles dos meus leitores que não o conhecem (é, dos sete, temos uma libanesa e um sullustano, então aquele abraço pros dois), tudo começou com Lunatic: you’re not here, quando – na manhã do aniversário da chegada do homem à Lua – Biagio desceu a Conde da Boa Vista vestido de astronauta para fincar uma bandeira selenita em pleno rio Capibaribe, representando toda a população lunática nessa conquista. Algum tempo depois, em In-Margens no. II: Sorry, I pushed the crab and it fell down, Biagio assumiu o atentado terrorista do sumiço da Estátua Horrenda de Chico Science na Rua da Moeda: sendo assim, fora amarrado no Poste do Chico (ôee!), humilhado e esculachado, com uma coroa de caranguejos vivos na cabeça, implorando desculpas aos passantes e prometendo “nunca mais fazer aquilo”. Biagio sobreviveu, os caranguejos também e, tal qual Cristo, Chico Science voltou à Moeda, vindo da Mansão dos Mortos no terceiro dia (mais ou menos). E agora teremos Caapiuar-Sushi, este encontro entre o japonês e o tupi, que curiosamente é a primeira perfomance que não será necessariamente pública. Participará com Biagio a atriz Camilla Rios, o jogo de xadrez será registrado pelas lentes de nosso cineasta Alex Guterres.

Mas, para nosso deleite e melhor compreensão desta e todas as outras In-Margens, segue a palavra de Biagio, inaugurando nossa seção “Fale com minha pata”. Vamos conferir o plá (ou melhor, o “quá-quá”) que rolou nesse encontro?

Pata: Qüem, quá-quá-quá qua quá quoc 03 squeac?

Biagio: In-Margens não é uma trilogia. No começo até passou pela minha cabeça essa ideia, mas não pretendo parar por aqui. Quero aprofundar esse tema, transitar em suas diversas linguagens. In-Margens tem se constituído como meu laboratório e tenho procurado cultivar, sem pressa, esse processo. Trabalhando ao lado de pessoas queridas, como o Alex Guterres (videasta), Camilla Rios (atriz), Milena Andrade (produtora), Deborah Guaraná (fotógrafa). Tudo isso tem me ensinado muito não apenas como artista, mas com pessoa. O fato de ser um projeto absolutamente independente me põe o tempo todo diante de mim e dos meus desejos e loucuras. Impõe sempre esse desafio de materializar os conceitos, de fazer do verbo carne, de mover os moinhos. Termino Caapiuar-Sushi e já tenho em mente o esboço das In-Margens IV, V e VI.

Pata: Quaqua-quá “In-Margens no. 1 “Lunatic: you’re not here”, quáquáquá-qüem.  Squeak, “Sorry, I pushed the crab and it fell down”. Quoc, quáquá-qüem qui-qui (quac, quac, quac und quoc-quoc). Quaraquáquá “Caapiuar-Sushi”? Quemquem, “sushi” und “capivara”?

Biagio: Engraçado ver você, uma pata (com todo respeito) fazer essa leitura destes dois trabalhos. Isso mostra que eles se conservam “abertos”, como aliás deve ser para mim o campo da arte, ao ponto de permitir esse entendimento de crítica à arrogância norte-americana ou ao endeusamento de Chico Science. A questão, do meu ponto de vista como criador, é outra. Mas é verdade que muito pouco se pode extrair concretamente de In-Margens, por enquanto. Creio que o todo irá mostrar melhor do que cada performance, vista isoladamente. “Lunatic” foi o pontapé inicial de um projeto sob o qual não tenho amplo domínio, um processo que me escapa, tudo que devo fazer é ir atrás dele, procurando. Observo muito a cidade e seus brinquedos (costumo ver brinquedos nas paisagens, nos monumentos, nos hábitos arraigados na cultura). A cidade é o parque de diversões do performer. Seria mais lúdico, se não tivesse também uma dor e um pathos, quem cria bole com demônios. Mas tenho aqui em mente um foco temático bem definido. O título In-Margens já remete a algo que está paradoxalmente dentro da margem. Acho isso óbvio, e gosto de ser óbvio nisso. Abordo nessa série a relação entre o típico e o universal, ou como prefiro, entre o endógeno e o exógeno (se é que essas coisas existem no mundo globalizado). Isso é tudo. É um tema já bem mastigado desde o modernismo, o tropicalismo o abordou fortemente nos anos sessenta não só através da música, mas no teatro de um Zé Celso Martinez Correa, por exemplo; o armorialismo na década seguinte quis impor reacionariamente o purismo da identidade nacional e nordestina, é um tema muito mastigado e nunca bem digerido – a verdade é essa. O próprio manguebeat dá um passo importante ao transfigurar a imagem da música de Pernambuco e de seus brinquedos populares, fundindo-os em sonoridades universais. Os caras ajudaram (sem desconsiderar o que foi feito antes pelo udigrudi) a tirar esse “cabaço” de uma cultura canavieira e purista, com essa imagem maravilhosa da parabólica na lama. Isso há quinze anos atrás. Agora essa transfiguração tornou-se status quo (basta lembrar que temos um secretário de cultura mangueboy). A história é assim. Mas, voltando, em toda a série estará presente essa questão, ora refletida na tensão entre cultura de massa X regionalismo, ora pela provocação aos elementos mais simbólicos dessa cultura local, ora, ora, ora. Acho que esse entendimento começa a nascer em mim há pelo menos uns três anos, quando vivia no sul do país e em Buenos Aires (Argentina), e nas andanças me perguntavam se eu tocava alfaia ou fazia xilogravura ou recitava cordel, posto que sou artista de Recife. Foi neste momento que percebi que não tinha raiz, que minha arte era do mundo e que Recife é um lugar do mundo e que há muitos artistas nessa cidade que fariam exatamente o que fazem (do ponto de vista estético) se produzissem em Tóquio, em Oslo, Roma, Tel Aviv ou Saturno. Descobri que estava e estou aqui por acaso – a despeito da saudade que tinha e tenho desta cidade, mesmo estando hoje nela. In-Margem Nº 3: Caapiuar-Sushi transparece mais claramente que nas duas performances anteriores esse interesse temático. É uma partida de xadrez entre uma gueixa e um ser primitivo, mítico. Ela joga com sushis e ele, digo, eu jogo com pedaços de bonecos humanos. Ninguém vence. Eu saio bem alimentado, ela fica sozinha. Evito, sobretudo nesta performance, argumentações mais racionais. Respeite meu sonho.

Pata: Quaraquaquá “happening”. Quac?

Biagio: Essa coisa de “happening” e performance são nomes que foram dados – porque não suportamos conviver com a obscuridade dos fenômenos, com coisas sem palavras – lá pela metade do século passado a experiências artísticas que não cabiam em nenhum campo da arte especificado até então. “Happening” passou a designar experiências mais espontâneas, as experiências originais que vêm desde o futurismo italiano, o construtivismo russo, o dadaísmo, o surrealismo enfim. “Performance” é aquilo que começou a se consolidar como linguagem já a partir dos anos 70. Não tenho grande experiência com isso, patinha, estou apenas começando. In-Margens é o meu primeiro projeto mais sólido na área. Antes apresentei, dentre outras, PROCURO-ME, aqui em Recife, no SPA2007 e em Buenos Aires, no mesmo ano, sempre em parceria com o também pernambucano Ângelo Fábio. Nos anos de 2008 e 2009 fui me tornando “especialista”, vamos dizer assim, devido à minha experiência original com literatura, nessa coisa de fundir o ato de recitar poesia na performance, prefiro dizer, “dar corpo ao poema” – porque é isso que procuro fazer. Ainda como um experimento, por isso não repito, porque não acho que tenha feito nada ainda digno de ser visto uma segunda vez. Do meu ponto de vista, a linguagem da performance já não tem a mesma função iconoclasta e demolidora que tinha em sua gênese. Estamos em outro contexto histórico, para mim, um contexto de reconstrução, o século XX deixou tudo espalhado e cumpriu assim sua tarefa. Entretanto, cabe dizer que faço questão de guardar um pé ali, naqueles movimentos, quero dizer: arte para mim precisa provocar, ou transcender, subverter uma ordem que não é necessariamente a ordem política ou moral stricto sensu, mas a ordem do “olhar” e do corpo. É uma longa conversa. Tem um quê de metafísica, entende? Não basta “ser interessante”, como diziam os minimalistas, interessante uma bunda bem-feitinha ou uma caneta com cheirinho de chiclete também o são. Está cheio dessas “coisas legais de se ver” na arte contemporânea. Acho isso um tédio.

Pata: Quáqua “performance” querequec und quac quac. Qui-quae-quod, Alejandro Jodorowski oder “Homem-Aranha Gay”, squauck qüem-qüem “Performance” und “Happening”?

Biagio: Creio que já respondi parcialmente. Sobre o Alejandro Jodorowski não posso falar nada, conheço só de nome. Sobre o Pânico na TV, não acho, sinceramente, que suas ações possam ser consideradas performance, ou pelo menos, não “performance art”. Isso é foda. A polissemia desse termo é impressionante. Você coloca no Google “performance” e vai aparecer de tudo, de produtos eróticos à automobilísticos; de musas do cinema pornô à jogadores de futebol americano; produtos eletroeletrônicos, espetáculos de circo, dança, foto de baiana fazendo acarajé em Amaralina, tudo. São geralmente coisas ligadas a idéia de “desempenho”. Performance como linguagem artística é outra coisa bem diferente. No cotidiano, quando vemos alguém fazendo uma coisa esquisita ou trangressiva não é raro a gente ouvir alguém comentar “é uma performance”. É aquele tipo de palavra que serve para tudo e não diz nada. Performance como linguagem artística é outra coisa bem diferente – repito. E a fórmula não está se desgastando, porque performance não tem fórmula. Acho que o que está se desgastando é a criatividade de muitos artistas na atualidade, que pensam num conceito qualquer, inventam uma performance que todo mundo vai olhar e vai dizer “que bonitinho, eu quero participar” e daí? A questão não é ser “interativo”, não é explodir os espaços tradicionais da exposição artística (galerias, teatros, palcos), não é fundir as linguagens, isso tudo já foi feito demais. Chega de se limitar ao tema da Não-Arte. Tudo bem, só espíritos velhacos hoje ainda têm aquela ideia de que arte tem que estar na tela ou esculpida em bronze ou barro, ou escrita em versos sublimes e metrificados, ou tocada a violino e com compasso definido. Já incorporamos o visual ao poema, o corpo (inclusive o corpo do “espectador”) às artes plásticas, o ruído e o silêncio à musica, o caos ao teatro. A questão agora é o que você quer manifestar com essa arte e se você consegue manifestar e atingir as pessoas, seja num tema mais intelectivo, reflexivo, seja puro ritual ou sensações físicas. Isso existe ainda, claro, e não é pouco não. Mas também há muito engodo, muita arte “legalzinha”, pra entreter. Voltando ao Pânico na TV, não há pesquisa de linguagem – pelo menos não estética – o que há é “provocação”, estritamente humorística, e necessidade de audiência. Não vejo problema nisso, só não conto como performance, tampouco como arte. Ademais, prefiro o CQC [risos].

Pata: Quemadmodum quac-quac 3,1416… quiquic… quaraquá no tchá-tchá-tchá?

Biagio: Música foi minha porta de entrada na arte, hoje dedico muito pouco investimento a esse campo. Tenho muita coisa escrita e inédita, minha cara patinha. Terminei de compilar recentemente poemas que fiz ao longo de 2008 e 2009 e queria lançar esse ano ainda. Mas tenho um romance parado, uma novela, três livros de contos terminados, fora o material de poesia e fotografia que foi produzido na Argentina (tão longe dentro do olho do xié) ainda em 2007 e permanece até hoje inédito. Quando dei conta dessa volúpia toda em escrever, me perguntei onde quero chegar com isso. Fui à praia, chupei um picolé de milho verde, vi umas cores que não existem [risos] e não escrevi mais nenhuma palavra, há meses, desde a FREEPORTO. Tenho dedicado tempo e vida à leitura e a pequenos prazeres da vida (sexo, drogas e Ângela Ro Ro, que tenho escutado muito). Nesse momento, depois de tanto escrever, acredito que estou começando, só sei assinar meu nome, moça. Deve ser o Retorno de Saturno.

Pata: Squonc quicquid quá-quá?

Biagio: Pergunta já respondida. Posso pedir uma coisa? Põe um ovo pra mim.

Pata: Quaquaqui, quaqua-qüá?

Biagio: Adoro ovo. Qualquer tipo de ovo. Mexido, cozido, de pato, de codorna, de galinha, de páscoa. Raramente como, mas olho com bastante atenção.

Pata: Quá-quá quaac.  Qüem Qüem!

Biagio: Obrigado.